Há muito, muito tempo, existia um sultão chamado Shariar que
dominava grande parte do velho oriente. A sede do seu governo ficava
na antiga Pérsia. Shariar era um homem bom, e por isso, muito amado
pelo seu povo. Esse sultão gostava muito de caçadas e sempre reunia
seus ministros e conselheiros para caçadas que demoravam dias.
Certa vez, numa dessas idas, Shariar esqueceu um importante
equipamento de caça, deixou o grupo a caminho e voltou, ele mesmo,
para pegar. Era também uma forma de rever a esposa amada, porque
saudade às vezes se instala tão rápido! Queria fazer uma surpresa
pra ela e entrou pela porta secreta, que só os dois conheciam. Mas,
para surpresa do sultão, a mulher estava nos braços de um de seus
súditos. Ele, possuído pelo ódio, ciúme e revolta, chamou seu
primeiro ministro, que tinha ficado responsável pela administração,
mandou prender o traidor e expulsou a rainha da Pérsia pra sempre.
Shariar voltou para a caçada, mas sua tristeza era tanta, que todos
perceberam. De volta, Shariar quis ficar um pouco junto a fonte, na
entrada da cidade. E lá, ele tomou a mais cruel de todas as suas
decisões: Se casaria, todo mês, com uma mulher e depois da noite de
núpcias, antes do dia clarear, ela seria morta. Assim, não correria
risco de ser traído.
Quando o povo começou a ficar sabendo da notícia, foi uma revolta
geral. Muitos pais mandaram suas filhas para outros países, até
para o ocidente, onde não fossem alcançadas pela fúria de Shariar.
E começou a ser posto em prática, aquele intento tão macabro. Quer
mulher queria ser possuída por Shariar, ainda que tão belo, se
dentro dele habitava agora um monstro e elas não alcançariam o
amanhecer?
E nas cerimônias de casamento, as noivas choravam todo o tempo.
Eram festas negras, porque todos sabiam: depois das núpcias, elas
seriam decapitadas. Shariar passou a ser odiado pelo seu povo. E
todos as moças sabiam, ou mais cedo, ou mais tarde, chegariam a vez
delas.
Na pérsia existia também uma moça muito linda. E como se não
bastasse a beleza, ela sabia contar história como ninguém. Conhecia
todas as histórias do oriente e inventava outras. Era Sherazade,
filha do primeiro ministro, o mesmo que levava as mulheres na
madrugada e as entregava ao carrasco, responsável pela execução.
Um dia, a valente Sherazade chamou o pai e se ofereceu para ser
mulher de Shariar. O pai ficou aflito. Como entregaria sua própria
filha para ser rainha, se na madrugada ele mesmo entraria na câmara
de núpcias e a levaria para ser morta?! Mas Sherazade era também
determinada e disse que tinha um plano. O pai, contra a própria
vontade, falou para o sultão que a próxima mulher seria sua filha.
Shariar ficou surpreso e advertiu que ela, mesmo sendo filha do
primeiro ministro, o homem de sua maior confiança, teria a mesma
sorte que as demais. O pai baixou a cabeça e acenou que sabia da
tragédia.
E assim foi. Na cerimônia de casamento, Sherazade pediu a Shariar
permissão para que sua irmã mais nova, Dinazade, dormisse nas
dependências do castelo, para que na madrugada, antes da execução,
ela pudesse lhe contar uma última história. O sultão consentiu. O
casamento aconteceu com a mesma tristeza, apenas Sherazade demostrava
contentamento, para surpresa de todos.
E depois das núpcias, Sherazade pediu permissão ao seu senhor para
Dinazade entrar nos aposentos dos dois. E quando a irmã chegou,
sentaram em ricos tapetes persas e Sherazade começou a contar uma
história. Mas antes de concluí-la, o dia já prometia chegar e ela
interrompeu a narrativa, deixando a curiosidade do rei atiçada.
Interessadíssimo pelo fim, Shariar não podia permitir que a mulher
morresse, antes de terminar aquela história. E lhe concedeu mais um
dia. E o dia foi longo para o sultão! Mal podia esperar a noite
chegar e ter a presença doce de Sherazade e sua narrativa. E na
madrugada, Sherazade concluiu a história e começou outra, ainda
mais interessante. O dia vinha amanhecendo e ela não havia
concluído, deixando um clima de suspense. Não, não poderia deixar
Sherazade morrer, sem terminar aquela história.
E assim, os dias iam se passando e Sherazade todas as noites
contava histórias de castelos, de princesas, de viajantes, de
heróis, amores, tragédias, comédias, mistério, drama, aventuras.
E Shariar mais e mais encantado. Enquanto ela narrava, ia se criando
um laço de amor não disfarçado. E a cada história, Sherazade era
mai envolvente: um pouco pela arte de narrar, um pouco para salvar a
própria vida e, não se podia negar o seu encanto pelo seu nobre
ouvinte. Enquanto ela narrava, o sultão esquecia seus problemas,
esquecia dos afazeres, esquecia seu povo, esquecia quem era.
E passaram-se mil e uma noites. Agora já era tarde! Sherazade já
havia conquistado o coração do sultão. O seu jeito de contar o
envolveu de forma tal, que Shariar não conseguia mais viver sem os
encantos daquela mulher tão linda, doce e inteligente. Dizem que
foram muito felizes e e todo o oriente, por todos os tempos, soube
dessa história de amor e de histórias.
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