segunda-feira, 30 de abril de 2012

Ilustradores, dentre eles, Daniel Diaz, que ilustrou A menina que descobriu o mistério das palavras
Com o escritor e editor Kelsen Bravos
No lançamento de Estrelas Cirandeiras
Na Escola Luíza Távora - Leitura e contação de histórias
"É bom ser moleque enquanto puder..."
Brincando, brincando, brincando...

História de Sherazade





Há muito, muito tempo, existia um sultão chamado Shariar que dominava grande parte do velho oriente. A sede do seu governo ficava na antiga Pérsia. Shariar era um homem bom, e por isso, muito amado pelo seu povo. Esse sultão gostava muito de caçadas e sempre reunia seus ministros e conselheiros para caçadas que demoravam dias.
Certa vez, numa dessas idas, Shariar esqueceu um importante equipamento de caça, deixou o grupo a caminho e voltou, ele mesmo, para pegar. Era também uma forma de rever a esposa amada, porque saudade às vezes se instala tão rápido! Queria fazer uma surpresa pra ela e entrou pela porta secreta, que só os dois conheciam. Mas, para surpresa do sultão, a mulher estava nos braços de um de seus súditos. Ele, possuído pelo ódio, ciúme e revolta, chamou seu primeiro ministro, que tinha ficado responsável pela administração, mandou prender o traidor e expulsou a rainha da Pérsia pra sempre.
Shariar voltou para a caçada, mas sua tristeza era tanta, que todos perceberam. De volta, Shariar quis ficar um pouco junto a fonte, na entrada da cidade. E lá, ele tomou a mais cruel de todas as suas decisões: Se casaria, todo mês, com uma mulher e depois da noite de núpcias, antes do dia clarear, ela seria morta. Assim, não correria risco de ser traído.
Quando o povo começou a ficar sabendo da notícia, foi uma revolta geral. Muitos pais mandaram suas filhas para outros países, até para o ocidente, onde não fossem alcançadas pela fúria de Shariar. E começou a ser posto em prática, aquele intento tão macabro. Quer mulher queria ser possuída por Shariar, ainda que tão belo, se dentro dele habitava agora um monstro e elas não alcançariam o amanhecer?
E nas cerimônias de casamento, as noivas choravam todo o tempo. Eram festas negras, porque todos sabiam: depois das núpcias, elas seriam decapitadas. Shariar passou a ser odiado pelo seu povo. E todos as moças sabiam, ou mais cedo, ou mais tarde, chegariam a vez delas.
Na pérsia existia também uma moça muito linda. E como se não bastasse a beleza, ela sabia contar história como ninguém. Conhecia todas as histórias do oriente e inventava outras. Era Sherazade, filha do primeiro ministro, o mesmo que levava as mulheres na madrugada e as entregava ao carrasco, responsável pela execução. Um dia, a valente Sherazade chamou o pai e se ofereceu para ser mulher de Shariar. O pai ficou aflito. Como entregaria sua própria filha para ser rainha, se na madrugada ele mesmo entraria na câmara de núpcias e a levaria para ser morta?! Mas Sherazade era também determinada e disse que tinha um plano. O pai, contra a própria vontade, falou para o sultão que a próxima mulher seria sua filha. Shariar ficou surpreso e advertiu que ela, mesmo sendo filha do primeiro ministro, o homem de sua maior confiança, teria a mesma sorte que as demais. O pai baixou a cabeça e acenou que sabia da tragédia.
E assim foi. Na cerimônia de casamento, Sherazade pediu a Shariar permissão para que sua irmã mais nova, Dinazade, dormisse nas dependências do castelo, para que na madrugada, antes da execução, ela pudesse lhe contar uma última história. O sultão consentiu. O casamento aconteceu com a mesma tristeza, apenas Sherazade demostrava contentamento, para surpresa de todos.
E depois das núpcias, Sherazade pediu permissão ao seu senhor para Dinazade entrar nos aposentos dos dois. E quando a irmã chegou, sentaram em ricos tapetes persas e Sherazade começou a contar uma história. Mas antes de concluí-la, o dia já prometia chegar e ela interrompeu a narrativa, deixando a curiosidade do rei atiçada. Interessadíssimo pelo fim, Shariar não podia permitir que a mulher morresse, antes de terminar aquela história. E lhe concedeu mais um dia. E o dia foi longo para o sultão! Mal podia esperar a noite chegar e ter a presença doce de Sherazade e sua narrativa. E na madrugada, Sherazade concluiu a história e começou outra, ainda mais interessante. O dia vinha amanhecendo e ela não havia concluído, deixando um clima de suspense. Não, não poderia deixar Sherazade morrer, sem terminar aquela história.
E assim, os dias iam se passando e Sherazade todas as noites contava histórias de castelos, de princesas, de viajantes, de heróis, amores, tragédias, comédias, mistério, drama, aventuras. E Shariar mais e mais encantado. Enquanto ela narrava, ia se criando um laço de amor não disfarçado. E a cada história, Sherazade era mai envolvente: um pouco pela arte de narrar, um pouco para salvar a própria vida e, não se podia negar o seu encanto pelo seu nobre ouvinte. Enquanto ela narrava, o sultão esquecia seus problemas, esquecia dos afazeres, esquecia seu povo, esquecia quem era.
E passaram-se mil e uma noites. Agora já era tarde! Sherazade já havia conquistado o coração do sultão. O seu jeito de contar o envolveu de forma tal, que Shariar não conseguia mais viver sem os encantos daquela mulher tão linda, doce e inteligente. Dizem que foram muito felizes e e todo o oriente, por todos os tempos, soube dessa história de amor e de histórias.

Hoje a noite anoiteceu também em mim.
Há dias tão bons de vento.
Outros parecem carregar todos os passados e levar os futuros,
tudo que poderia ter sido e que não foi.
Mas haverá um amanhã,
pode ser que nele estrelas visitem meu quintal.

Estrelas Cirandeiras


Voz de passarinho




Hoje acordei com voz de passarinho pendurada na minha garganta.
Menina ainda, descobri que o dia amanhece melhor
quando o sorriso acorda primeiro.
Mas antes da tarde fazer tarde o dia,
a voz de passarinho calou e ficou um ermo na garganta.
Porque o ouvido que nem é distante
ouviu palavra encrespada e difícil.
Porque ouvido escuta tudo
e coração nem de tanto se agrada.
Os olhos entristeceram antes de de tarde
e começou a chover em mim.
Porque acordar com voz de passarinho na garganta
não acalanta a dor do mundo,
que gente há que não tem mais voz.

                  Efigênia Alves

Sou assim




Sou assim bem desse jeito,
feita de manhãs e primavera.
Durmo pouco, sonho alto,
Abraço muito, curto a lua, as vezes turva.

Sou assim, bem desse jeito:
meio sem graça, meio sem termo.
Às vezes colorida, às vezes cinza.

Sou assim, bem desse jeito:
serena, sempre com desejo de chuva
e olhos de horizonte.

Efigênia Alves